sábado, 4 de abril de 2015

Ora, como prometido, aqui vai:

                                              " usava perfume de maresia e de flores molhadas"


Tinha trocado tudo (ou nada), por aquela semana, naquele hotel. Na ideia ia conhecer gentes. Trocar histórias de viagens, de amores amargos e falhados, truques de culinária, ou talvez somente escutar e dizer os terríveis hábitos de solteirona assumida. Por opção de vida, claro!
O átrio estava pintado de ocre, dourado e branco. Os sofás de veludo verde azeitona, ou verde dos olhos dos homens das revistas francesas, estavam um pouco coçados e pálidos. Deixavam imaginar a quantidade de hóspedes, que tal como eu, se deixaram contagiar pelo ar de conforto daqueles sofás verdes.
A escada de mogno estava repleta de vasos, com plantas exóticas e lustrosas. Também havia animais em marfim, minuciosamente trabalhados. Os quadros eram lá em cima, e à medida que se subia, o ar ia sendo cada vez mais perfumado, mais intenso e frio. E a luz, essa era mais clara e azulada. Um azul desmaiado, calmo, quase tranquilo. Instalei-me. Abri as janelas e deixei entrar a brisa, acompanhando-me no desfazer das malas. Foi aí que começaram as conversas, as confidências.
Ela contou-me que vinha do mar. E era verdade, pois ainda estava húmida e fria. Gostava de cumprimentar os novos hóspedes e fustigava-lhes o rosto como boas vindas. Gostei dela, era simpática e fresca.
À noite, quando desci para jantar, ainda não sabia que iria fazer a segunda amizade do dia.
A mesa era redonda e vestida até aos pés, com uma toalha vermelha de tecido grosso, que parecia linho. As porcelanas, os copos e os talheres ocupavam o seu lugar habitual, numa mesa bem arrumada. Apenas o que me fez sorrir e olhar demoradamente, foi o bouquet. Não eram flores vulgares. Eram conhecidas de longa data e muito perfumadas.
Frequentaram a mesma estufa e tiveram o mesmo jardineiro durante anos. Com o decorrer da conversa, percebi que já tinham sido mais amigas. Pois uma delas falava de um lírio roxo com um ar triste, piscando-me o olho e apontando para a amiga. Amores cruzados, deduzi!
Já escrevi para casa, dizendo que conheci imensas pessoas. Sentia-me importante e cheia de amizades. Hoje o serão prometia. Havia baile no salão do hotel. Juntei-me com as minhas amigas, para decidirmos a toillette da noite. Como estou a gostar delas! Aconselham, riem, são divertidas e admiram-me. Era tudo o que eu procurava!
Ouviam-se os primeiros acordes. Afinações habituais. A orquestra começou a tocar antigos êxitos, daqueles que nos fazem recuar no tempo e sentir algo que há muito estava esquecido. Hum...

Sem comentários:

Enviar um comentário